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  • Foto do escritorThe Vendôme's Cortex

PHARRELL WILLIAMS: AO INFINITO E À LOUIS VUITTON

Atualizado: 27 de set. de 2023

A jornada do artista e empresário que o levou à umas das maiores casas de luxo do mundo, ocupando um dos cargos mais importantes do segmento.
Foto: Julia Marino

Dia 14 de fevereiro de 2023, após o surgimento de alguns rumores dentro da mesma semana, foi confirmado por meio de um comunicado oficial da Louis Vuitton que Pharrell Williams, 50, era o novo diretor artístico da maison francesa, após meses de indefinição ocasionado pelo repentino falecimento de Virgil Abloh, antigo ocupante do cargo.


Depois de ser tomado por um grande entusiasmo, talvez por se tratar de uma figura tão interessante, confesso que precisei estudar para tentar encontrar respostas para os tantos questionamentos que surgiram em minha cabeça e amadurecer minha visão sobre esse momento da moda, que pode ter sido um dos mais controversos e relevantes dos últimos anos.


WILLIAMS E A MODA


Original da Virginia Beach e nascido em 1973, Williams é filho de Pharaoh, um faz-tudo, e Carolyn, professora. O artista e empresário multifacetado ainda é casado com Helen Lasichanh, com quem tem 4 filhos.


Pharrell começou sua relação com a moda cedo. Mesmo antes de seus primeiros empreendimentos no segmento, fica claro que ele sempre enxergou nas roupas uma ferramenta de se expressar e de se posicionar no mercado, como pessoa e como artista, onde sempre deixou claro seu estilo autêntico e experimental.


Em 2003, co-fundou a Billionaire Boys Club, junto com seu parceiro até os dias atuais, Nigo. Já no final daquele ano, ele desenhou para a Louis Vuitton ao lado de Marc Jacobs e Nigo, mais uma vez, o Millionaire, óculos que foram lançados em 2004. Para a mesma maison, ele voltou em 2006 para uma campanha e em 2008 para a elaboração de uma coleção de jóias. Nos anos seguintes, Pharrell ainda trabalhou com a Adidas, tendo sua primeira coleção com a marca lançada em 2014, Moncler e Chanel, esta última para a qual ele se tornou o primeiro homem a participar de uma campanha e em que fez uma coleção cápsula em 2019, além de ter sido embaixador da maison por 9 anos.


Eu me lembro quando estava morando em Paris em 2017 e Pharrell lançou um tênis em collab com a Chanel e a Adidas, para homenagear a história da Colette, umas das lojas mais icônicas da cidade que encerrou suas operações ao final daquele mesmo ano. A collab foi um enorme sucesso. O tênis se esgotou em pouquíssimo tempo e logo após começou a ser vendido por um preço muito acima do original nas lojas online.


Fonte: TheNeptunes.org

Ainda na moda, em 2016 Pharrell comprou parte da marca holandesa de jeans G-Star Raw, exercendo um papel criativo e se relacionando também com as estratégias de negócios da empresa, trazendo avanços em matéria prima. Em 2018, ele lançou, ao lado da Adidas Originals, uma nova linha de roupas e calçados unissex, chamada HuHoliPowder Dye Collection, inspirada no festival espiritual hindu conhecido como o “festival das cores”, em comemoração ao início da primavera na Índia e no Nepal. Na ocasião, ambos foram acusados de apropriação cultural, além de alguns membros da comunidade apontarem que algumas das peças usavam couro de vaca, animal conhecidamente sagrado para a população local. Em 2019, se juntou como diretor criativo à Bionic Yarn, uma empresa que transforma resíduos plásticos em têxteis de alta qualidade.


Mas é impossível falar sobre Pharrell sem deixar de passar pelo corpo central da sua atuação: a música. Considerado em 2021 pela Billboard, referência no segmento, o segundo maior produtor musical do século XXI, Williams é um cantor, compositor e produtor super bem sucedido, com uma história longa de contato com um elemento forte da cultura, que tem contato próximo com os consumidores e, de maneira geral, com o que esse público gosta e busca. Ele possui um currículo com inúmero sucessos, como “Happy”, “Get Lucky” e “Blurred Lines”, esta última que foi um dos maiores sucessos de 2013 e provocou uma multa de mais de 5 milhões de dólares por plágio, além de ter feito Pharrell dar uma entrevista em 2019 dizendo se sentir envergonhado pela letra da canção, que foi enxergada como uma promoção a cultura do estupro. Ainda no segmento, em 2017 foi lançada uma música, que só poderá ser ouvida em 2117, com o objetivo de trazer atenção à mudança climática.

Fonte: SSENSE

Na frente de filantropia, Pharrell é fundador da Black Ambition, uma iniciativa sem fins lucrativos que tem como objetivo alavancar e dar oportunidades a empreendedores pretos e hispânicos. E, falando em empreendedorismo, Pharrell é ativo no setor gastronômico, hoteleiro e também possui uma marca de skincare, a Humanrace, focada em produtos sem gênero.


Pharrell é enxergado por muitos como uma pessoa multifacetada, sendo até chamado de polímata, e é impossível pensar nesse adjetivo sem pensar em Leonardo da Vinci. Isso me trouxe instantaneamente à memória quando Leonardo chegou aos seus trinta anos, em 1482, e decidiu voltar à Milão, enviando uma carta ao prefeito da cidade, Ludovico Sforza, pedindo um emprego. Na carta, que não se sabe se foi escrita em Florença ou já em Milão, Da Vinci lista suas habilidades e conhecimentos: projetou pontes, canhões, sabia maneiras de escavar sem fazer barulho; sabia esculpir em mármore, bronze e argila; e, claro, tinha conhecimentos na pintura. Além disso, é notável que havia desenvolvido saberes profundos e empíricos na anatomia humana, na matemática, na engenharia hidráulica e zoologia. Dito isso, Pharrell não parece ser exatamente um polímata do século XXI. Ele tende mais a ser um importante, bem-sucedido e meritório artista e homem de negócios, com diversas atuações e colaborações criativas, principalmente nos segmentos da música, moda e beleza. Talvez seja até por esse ponto de vista que a escolha da Louis Vuitton faça mais sentido. Mas seu papel em todos esses setores parece ser mais superficial, de supervisão. Fica a impressão de que botar a "mão na massa" é para seus liderados.


Williams é ainda um ativista de causas relevantes, com ações em direção ao que acredita, mas também com contradições, algumas apontadas aqui e outras mais pela frente, que nos coloca dúvidas sobre suas crenças.


E A DIREÇÃO ARTÍSTICA VAI PARA…


No dia 14 de fevereiro de 2023, Dia de São Valentim (Dia dos Namorados) em diversos países do mundo, vem o comunicado oficial: Pharrell Williams é o novo diretor artístico da Louis Vuitton, sucedendo o falecido Virgil Abloh, uma lenda do streetwear. Como bem detalhado pelo The New York Times, Pharrell recebeu uma mensagem em dezembro de 2022 de Alexandre Arnault, membro da família que controla o conglomerado de luxo LMVH e que trabalha atualmente na Tiffany & Co, além de ser amigo de longa data de Pharrell. A mensagem dizia: “Por favor, me ligue. A hora chegou."


Pharrell é a quarta pessoa preta na história a ocupar o cargo de diretor artístico em uma casa de luxo: o primeiro foi Oswald Boateng, que esteve à frente da coleção masculina da Givenchy entre 2003 e 2007; o segundo foi Olivier Rousteing, que permanece na Balmain desde 2011; e o terceiro foi justamente o antecessor de Pharrell, Virgil Abloh, que esteve no cargo entre 2018 e 2021, quando faleceu devido a um câncer, pegando todos de surpresa. Assim, com esse histórico, a manutenção do cargo nas mãos de uma pessoa preta era relevante e necessária.


A indicação de Pharrell não estava no radar da maioria das pessoas. Nomes como os dos estadunidenses Telfar Clemens e Colm Dillane e das britânicas Martine Rose e Grace Wales Bonner eram alguns dos que estavam sendo cotados para a vaga, e até apresentavam uma ampla aceitação entre aqueles que acompanham o mercado. A escolha de Williams gerou um certo incômodo em alguns, mas de onde vem todos esses sentimentos?

Fonte: Louis Vuitton

Antes de qualquer coisa, a Louis Vuitton é uma das maiores marcas de luxo no mundo. Fundada em 1854, hoje ela faz parte do grupo LVHM, comandado por Bernard Arnault, e está presente em 72 países, com 450 lojas. Ou seja: a Louis Vuitton representa uma das jóias da coroa no mercado de moda e luxo, principalmente quando olhamos para a diretoria masculina e para as evoluções, ou até revoluções, pelas quais a maison passou nos últimos anos, que provocaram um crescimento no seu grau de relevância.


A escolha de Virgil Abloh para o cargo em 2018 representou uma ascensão das ruas, como bem colocado por Gabriella Negromonte no terceiro episódio da primeira temporada do The Vendôme's Cortex. Mesmo Abloh não tendo uma formação acadêmica em moda, ele se provou ao longo dos anos, construindo obras que não sobreviveram, mas também marcas que se tornaram ícones de um zeitgeist e foram enormes sucessos. Ele passou um período ao lado de Kim Jones (um dos maiores diretores artísticos da atualidade), estagiou na Fendi, teve o aval de Louise Wilson (uma das maiores acadêmicas de moda no mundo), participou de competições e aprendeu com seus sucessos e fracassos. Isso para dizer muito por cima. Quando ele chegou à Louis Vuitton, Virgil já possuía uma extensa experiência in loco no cargo de direção artística, se provando ser um grande maestro das passarelas, mas também de uma filosofia de vida: sempre olhava para o seu próprio 'eu' da adolescência. Sua função? "O meu real trabalho é assegurar que há 6 crianças pretas que vão pegar o meu trabalho depois de mim", disse ele uma vez.


A indicação de Pharrell à Louis Vuitton nos pegou de surpresa porque a maison não é apenas qualquer uma no portfólio de um grande grupo, e Pharrell não é exatamente a pessoa mais experiente em design de moda. E é extremamente importante ressaltar que eu estou de acordo que a educação formal nem sempre é o caminho. Anna Wintour, Diana Vreeland, Simon Porte Jacquemus, Karl Lagerfeld e Jean Paul Gaultier são apenas alguns dos grandes nomes na moda que não possuem ou possuíam formação acadêmica no setor, mas que fizeram história e conquistaram prestígio. Pharrell não ter uma formação não é o problema. Mas essa indicação parece-me ter o potencial de apagar uma chama de esperança das ruas voltarem a este cargo, naqueles que lutam para conquistar seus lugares, mas que podem perder oportunidades para pessoas que já conquistaram seu lugar no mundo e que não demonstram a capacidade técnica de estarem ali. Como disse Robin Givhan, do The Washington Post: "Williams não estava lutando. Ele não estava batendo nas sombras. Ele estava sob os holofotes usando óculos escuros com diamantes e jaquetas Chanel. Mas ok. Tudo bem. A vida não é justa."


Fonte: QG

Além disso, quando olhamos com uma lente da moda para o currículo de Williams, tenho dificuldade em enxergar discrepâncias entre seu histórico e o de Kim Kardashian, Beyoncé ou Rihanna, e não é possível afirmar que essas seriam boas indicações ao cargo. Ninguém, até onde eu vi, está generalizando, desqualificando ou dizendo que a carreira deste artista de sucesso ou sua história são irrelevantes, mas elas são suficientes para justificar a sua indicação a este cargo? Provavelmente não.


O crítico Micah Kannike traz uma outra visão superinteressante. Ele parte da compreensão de que com os movimentos de mercado das últimas décadas, com as marcas de moda de luxo crescendo exponencialmente e ocupando lugares na sociedade que transbordam para além da indumentária, o papel dos diretores artísticos como nós conhecemos se tornou obsoleto. É mais sobre entregar uma visão criativa, e com um olhar de cultura para a marca, e menos sobre ter "apenas" um conhecimento técnico ou um saber notório, uma vez que qualquer pessoa que ocupar esse cargo vai ter um ateliê capacitado para auxiliá-lo nas outras tarefas.


Hazel Clark, professora da Parsons School of Design, em Nova York, segue no mesmo caminho, afirmando que as funções de um diretor artístico “evoluíram para longe de ser designer. Este é mais um papel de liderança promocional de marketing para a marca”. Isso tudo é extremamente importante de ser analisado e eu concordo com ambos, mas continuo enxergando esse cargo como uma união entre as duas coisas: a capacidade e conhecimento técnico e a habilidade de trazer uma visão criativa ampla, com potencial de transformar a marca em um elemento cultural, precisam andar de mãos dadas. É muito difícil um cargo de liderança ser ocupado por uma pessoa que não tem conhecimento técnico para estar ali, que não sabe profundamente sobre o que está sendo feito. E ainda mais: a falta do conhecimento técnico pode limitar a atuação desses personagens. Não ter esse conhecimento sobre matéria-prima, sobre modelagem, sobre as novas tecnologias, limita a forma como essas pessoas vão liderar seus times, suas criações e dialogar com a mídia, por exemplo.

Fonte: GQ Japão

Em uma das entrevistas pré-desfile, o repórter diz a Pharrell que "onde há amantes, às vezes também há haters", dando a entender de que quem não amou a indicação de Pharrell ao cargo, odiou, como se não houvesse lugar para outras opiniões no meio termo. Talvez induzido ao erro, Williams responde: "como pretos neste planeta, estamos acostumados com isso, nos dizendo o que você pode ou não fazer..." Ele tem razão. Nós, pretos, temos a nossa capacidade questionada em várias circunstâncias, mas parece que ele faz o diagnóstico errado nesta situação. Primeiro porque as pessoas não estão questionando a escolha porque ele é preto. É natural questionar a escolha de um cantor para o cargo. Segundo que para essa hipótese parar de pé, imaginamos que toda e qualquer outra pessoa preta que fosse indicada a este cargo seria questionada por sua cor de pele, algo difícil de se imaginar. E, por fim, é preocupante Pharrell colocar seus críticos dentro de uma caixa de racistas, que pode ser uma das interpretações do que ele disse.


Pharrell, que contratualmente irá dedicar 30% do seu tempo ao desenvolvimento das coleções, fala muito sobre a importância dos Estados Unidos e desta comunidade na construção da Louis Vuitton. E após discorrer sobre a importância de alguém preto em seu cargo, ele também ressalta sua ambição em expandir o programa de embaixadores da marca para academias pretas, autores pretos e um astrofísico preto. Nós só ficamos na torcida de que essas ações também saiam do território do seu país de origem.


Hoje, as marcas não estão em busca apenas de uma base de consumidores. Elas almejam uma troca mais sincera e leal: uma base de fãs. Em uma entrevista, o CEO da maison Pietro Beccari explica mais a sua escolha por Pharrell: “Eu precisava de alguém que estivesse, novamente, conectado às artes, que pudesse tocar o coração das pessoas por meio da música e da moda, mas também de colaborações”. No comunicado oficial, Beccari também afirma esse ponto, dizendo que “sua visão criativa além da moda sem dúvida levará a Louis Vuitton a um capítulo novo e muito emocionante”. Em uma entrevista para Lucas Leitch, da Vogue Business, Pharrell também disse que seu papel é trazer visão. Com certeza esta é uma interpretação do que é o cargo, que normalmente possui mais algumas outras funções.


Mas isto está claro: Williams foi indicado com a tarefa de alavancar a importância cultural da Louis Vuitton no mundo, até mesmo por ele ser visto como um ícone cultural e ter um longo background no assunto. E este é um importante movimento de mercado em direção a consolidação do entretenimento na indústria da moda. A proximidade entre o mercado e as celebridades vem de longuíssimo tempo, desde a escolha da cantora, atriz e modelo britânica Twiggy para a capa da Vogue estadunidense em 1967 até a escolha do rapper Puff Daddy para ser anfitrião dos prêmios da Vogue em 1999. A fórmula da indicação de uma celebridade ao cargo de diretor artístico é recente e praticamente inédita na proporção do que estamos tratando neste artigo, mas temos indícios de que ela pode não ser 100% efetiva. Basta lembrarmos do fracasso que foi a Fenty, também criada dentro do grupo LVHM. Rihanna e sua imagem não foram capazes de fazer a marca decolar e ambos os lados optaram por fechar suas portas pouco depois de 2 anos de seu lançamento.


Tudo bem. A Louis Vuitton tem como ambição se tornar um agente de movimento na cultura pop global, o que é maravilhoso e necessário. E a indicação de Pharrell ao cargo vai totalmente de encontro a esse objetivo estratégico, aparentemente. Mas é interessante pensar que essa justificativa se tornaria mais plausível se outras marcas não estivessem conseguindo se inserir na cultura pop global com um diretor artístico com conhecimento técnico no segmento, o que não é o caso da Balmain, JW Anderson e Balenciaga, por exemplo. Ou seja: as duas coisas conseguem andar lado a lado. Pra mim surge a pergunta se não seria mais efetivo a Louis Vuitton ter oferecido a Williams um cargo de diretor de cultura, ou a criação de um comitê de cultura que olhasse para os 5 continentes do mundo, que é um detalhe que merece atenção: a cultura é ampla e diversa.


Fonte: SSENSE

A GRANDE ESTREIA DE PHARRELL

“A questão filosófica que colocamos a todos é: cara, quando o sol brilhar sobre você, o que você fará?” Foi assim que Williams sintetizou o seu primeiro show para a Louis Vuitton.


Poucos dias antes da estreia saiu a sua primeira campanha para a maison com a Rihanna grávida. Usando um look com uma padronagem que vem a ser o damouflage, ali pudemos ter um gosto da nova imagem da marca. O show de primavera/verão 2024 contou com mais de 1700 convidados, sendo um com uma das maiores estruturas já vistas na capital francesa, para onde Williams se mudou acompanhado de sua família.


A locação escolhida foi a emblemática Pont Neuf (Ponte Nova), que fica em frente à sede do grupo LVMH. A ponte representa, de forma metafórica, a conexão entre Paris e a cidade natal de Pharrell, Virgínia. Seu asfalto recebeu a clássica padronagem quadriculada da maison introduzida em 1889, também conhecida como damier. A maioria dos convidados chegaram de barco pelo rio Sena, com os arredores do local completamente tomado pelo tráfego intenso da imprensa, curiosos e celebridades. Inclusive esse ponto levantou uma questão local sobre o uso do espaço público por empresas privadas.


Com relação a coleção, que contou com o suporte de Nigo, do qual já falamos, e do stylist Matthew Henson na sua elaboração, o show trouxe um guarda-roupa masculino completo, dividido em cinco categorias: alfaiataria elegante, roupas para o conforto, roupas de resort e férias, roupas esportivas para entusiastas e praticantes e uma coleção básica de itens básicos para o dia a dia. Tudo isso regado com muitos acessórios. E de fato foi uma grande mistura: bolsas, sapatos, óculos de sol, baús, brinquedos, galochas, chapéus, bonés, jaquetas e muito mais.


Apesar de vermos toda essa variedade de produtos, a consistência ficou por conta do damouflage pixelado, que permeia quase toda a coleção, mas que do meio para o final da apresentação acaba perdendo consistência. É como se Williams quisesse contar algumas histórias ao longo do show e elas não necessariamente se conectassem. Outro elemento que esteve muito presente foi a releitura do tradicional monograma “LV”, que recebeu uma moderna e carinhosa atualização para “LV-overs” ("amantes"). Uma das inspirações para isso foi a cidade natal de Pharrell, Virgínia, que tem como slogan “Virginia is for Lovers” ("Virgínia é para amantes"). Mas Pharrell também disse que a escolha de trazer essa nova leitura à logo é porque ele queria devolver amor e respeito à Paris, uma cidade que o tem mostrado amor desde o começo de sua carreira.

Fonte: LVHM

Vários acessórios roubaram a cena. Todos muito bem executados e alguns que trouxeram à lembrança algumas das criações de Virgil. A bolsa Speedy, criada por volta de 1930, foi uma das peças que mais ganhou os holofotes, que chegou repaginada a partir da ideia do diretor em abraçar a identidade que os falsificadores usam, brincando com algo que, geralmente, poderia incomodar as lideranças das maisons. Ele se inspirou nos produtos que ficam à mostra na Canal Street, em Manhattan, trazendo um couro mais macio, mole e com cores primárias.


Também não podemos deixar de lado a Speedy com pele de crocodilo, que ganhou o nome de Millionaire Bag por custar 1 milhão de dólares e ser feita com o que há de melhor em materiais e mão de obra. A peça parece ter sido perfeitamente desenvolvida, mas é no mínimo estranho ver um ativista ambiental colocando uma peça do tipo em sua primeira coleção. Logo após o desfile, Tracy Reiman, vice-presidente executivo da PETA Estados Unidos, se pronunciou sobre o uso de pele animal na coleção, condenando o ato e dizendo que "a PETA espera que sua passagem na Louis Vuitton seja tão efêmera quanto a vida dos animais que sofrem de forma horrível na moda".


Nos óculos, Pharrell quis brincar com os formatos. Ele trouxe construções que fizessem com que as pessoas parecessem personagens, como se elas estivessem usando um filtro. Mas é interessante porque Pharrell demonstra ter uma certa restrição de repertório para explicar o conceito por trás de sua coleção e das peças. Quando perguntado em como ele chegou em um modelo específico desfilado, ele se limitou a dizer: "com desenhos. E algumas referências", já virando de lado, dando a entender que a sua resposta se encerraria por ali. Algo parecido aconteceu em um vídeo produzido por Loic Prigent, renomado documentarista francês que costuma trazer em seu canal no YouTube os bastidores dos desfiles. Prigent, que normalmente conversa diretamente com as mentes por trás das criações, conversa com pessoas da equipe de Williams, e não com o próprio. Inclusive Pharrell se negou a conversar com a imprensa logo após o desfile, como é de costume.


Pharrell parece ter seguido bem as diretrizes do Baccari, CEO da maison. O chefe disse que o novo diretor deveria pensar no “período pós-COVID em que as pessoas se vestem um pouco mais, talvez para incutir a ideia de que a Vuitton também tem o domínio da alfaiataria.” Ele também mostrou interesse no que Pharrell trouxe de ideias para “um tipo de homem elegante, com uma silhueta menos oversized e ajustada mais próxima ao corpo”.


De fato a coleção é mais comercial do que provocante, e mostra um leve afastamento entre a maison e as ruas. Isso até chega a ser enfatizado quando Pharrell afirma que sua visão para a marca é a visão de um comprador. A coleção é uma espécie de autobiografia que trouxe referências imagéticas da sua carreira, que representava seus gostos, seus amores. Williams chegou a declarar que ele se olha “como se fosse o verdadeiro cliente. Então eu projeto para o que quero e para o que vou precisar.” Ele também traz elementos culturais que não demandam muito esforço de compreensão, com certeza sem tantas camadas como as construções super inteligentes de Abloh. Em mais um elemento estadunidense, ele trouxe inspirações do artista californiano Henry Taylor em lindos conjuntos com rostos de pessoas em um formato bem pequeno substituindo a logo da Louis Vuitton, por exemplo.


Alguns disseram que nós não poderíamos esperar uma grande mudança nesta primeira coleção. Será? Virgil Abloh faleceu 19 meses antes do lançamento desta primeira coleção de Pharrell. Praticamente 6 coleções foram feitas nesse meio tempo; uma delas inclusive liderada por Colm Dillane, da KidSuper. Isso me leva a pensar que Pharrell poderia sim ter trazido uma visão mais inovadora e disruptiva para este primeiro trabalho.


Já a trilha sonora foi feita sob medida pelo novo diretor, e mostrou aqui uma visão de cultura mais restrita aos Estados Unidos. Pharrell aproveitou o lançamento de seu trabalho na moda para fazer um lançamento de seu trabalho na música: parte da trilha sonora do show ficou por conta do coral Voices of Fire, também de Virginia, que entoou “Joy", a música que acabava de ser lançada pelo diretor. O grupo, inclusive, foi formado em uma igreja que é liderada pelo pastor Ezekiel Williams, tio de Pharrell, e é incrível que nós não vimos quase ninguém falando dessa conexão, porque isso torna tudo mais especial. A orquestra com 55 músicos foi comandada pelo francês Thomas Roussel.


Fonte: LVMH

No casting, Pharrell ganhou muitos pontos. O diretor conseguiu reunir pessoas de diferentes etnias, corpos e ainda chamou a atenção por trazer amigos para a passarela, como o rapper Pusha T e o ex-diretor artístico da Saint Laurent Stefano Pilati. O que também chamou a atenção foi a inserção de mulheres na passarela. Isso porque existe um outro diretor artístico responsável pelas coleções femininas, o Nicolas Ghesquière. Apesar de nada ser confirmado, há alguns indícios de que Pharrell não consultou seu parceiro sobre esse ponto, e logo após o show surgiram rumores de que Ghesquière ficou descontente com isso e exigiu que o número de modelos mulheres fosse cortado. Coincidentemente, uma matéria da Vogue antes do show dava a entender que algumas modelos fossem desfilar, mais do que as três que de fato passaram por ali.


Após a saída do último modelo da passarela, todos os modelos voltaram para a última passagem, como de costume. Williams, em sua saída para agradecer o público, quebrou o protocolo da tradicional rápida aparição dos diretores artísticos e ficou pelo menos 3 minutos na passarela. Ele abraçou a família, deixando claro a sua importância, ajoelhou-se, agradeceu e se mostrou emocionado com o momento. Minutos depois sua equipe do ateliê foi ao seu encontro, o que não é uma disrupção e foi completamente natural para a circunstância em que eles foram responsáveis por grandíssima parte do que vimos. Surpresa seria se a equipe não tivesse aparecido. Equipe essa dominada por pessoas brancas, ponto que vale chamar a atenção uma vez que o próprio diretor levanta a questão racial com tanta energia.


Para encerrar aquele momento, Pharrell trouxe mais um grande elemento da cultura estadunidense, o seu amigo e rapper Jay-Z, que fez um pocket show para os convidados e que, para a surpresa de alguns - eu me incluo nessa, Pharrell subiu no palco e eles performaram lado a lado. Uma imagem completamente nova em um universo em que os diretores artísticos preferem, em sua maioria, manter a discrição do que correrem para os holofotes.


Luigi Torre, da Elle Brasil, escreve: "Pharrell é como o presidente de um clubinho fechado de mentes talentosas e estreladas. Aquele grupinho do qual todo mundo quer fazer parte, mas pouquíssimos têm a carteirinha". Aproveitando a deixa, surge mais uma pergunta: para onde vai o legado de Virgil, que era conhecido por compartilhar seu número telefônico com fãs de tão próximo que ele buscava estar nas pessoas de fora desse "clubinho".


O desfile foi um grande espetáculo. É possível tirar inúmeros pontos interessantes e apreciativos do que foi mostrado, mas que ainda nos deixou longe de ter uma ideia de para onde vamos ser levados por Pharrell. O novo diretor foi ovacionado e foi um momento muito emocionante, que comemora a chegada, mais uma vez, de um representante da elite financeira e artística a um dos cargos mais cobiçados da moda, uma vez ocupado por um representante das ruas e um grande conectado à cultura global.

Fonte: fotografada por Acielle / StyleDuMonde / Vogue Runway

POR FIM

Pharrell é de fato um ícone cultural, com mais de 10 Grammy's em casa e inúmeras outras contribuições para o segmento em seu currículo. Mas em seu primeiro teste, ele trouxe uma visão ainda muito centrada na cultura estadunidense, com um desfile que chega muito perto de reforçar os estereótipos já conhecidos, talvez principalmente para quem não nasceu e não vive no país. A coleção primavera/verão 2024 é, de certa forma, genérica e reforça uma visão com peso muito comercial, bastante apoiada na recém reformulada e moderna abordagem do uso do damier. Grande parte das referências que Pharrell usou vieram dos Estados Unidos: desde a música até o styling. Para quem foi contratado para aplicar uma visão global de cultura e comportamento, algo parece ter ficado fora do lugar.


A indicação de Williams deixa uma pergunta muito interessante na mesa: o que é necessário para ocupar um cargo de tamanha importância? Ter uma dúzia de collabs com grandes marcas? Ter paixão pelo segmento é suficiente? É preciso dizer que ainda não há clareza sobre o seu papel na casa. Mesmo nas oportunidades que lhe dão, Williams não discorre sobre seu processo artístico da forma como gostaríamos. Ele apresenta ter uma certa facilidade em dizer e mostrar que ele sabe o que ele gosta, mas não necessariamente apresenta a mesma virtude quando o sujeito da equação é o consumidor, em que ele deixa claro para quem trabalha: para aqueles que têm condições financeiras de bancar o que cria. Enquanto uns quiseram abrir portas para os jovens poderem ao menos sonhar em chegar em um cargo alto na indústria um dia, essa parece ser uma preocupação periférica a Pharrell. Quando pensamos em universitários ou em jovens talentos sonhando com seus futuros, talvez Pharrell seja uma das representações de que a meritocracia pode ser uma utopia.


O futuro de Williams na maison ainda é uma incógnita, o que é completamente natural para quem chegou há bem menos de um ano. O próprio Beccari, CEO da Louis Vuitton, deixa o futuro em aberto: "então, como diretor criativo, embora seja um experimento, acho que será um sucesso.” Pharrell ainda está no processo de aprendizagem, como ele mesmo disse: “eu sou um estudante - estudantes aprendem." Isso é natural para alguém que não era do ramo, mas não é esperado para alguém que está na cadeira que ele ocupa, dentro da maison em que se encontra. Não sei se é exatamente um estudante o que nós esperávamos para este cargo, nesta casa. Mas uma das virtudes de Pharrell, com certeza, é que ele aparenta ter uma leveza incomparável e levar a vida com muita ponderação. Com sua visão calma e cheia de vivacidade, ele pode se colocar como uma espécie de terapeuta em um segmento onde muitos sofrem com a pressão, e trazer frutos produtivos dessa grande parceria. Vida longa a Pharrell Williams na Louis Vuitton.

Fonte: fotografada por Nicholas Maggio / Pause Magazine

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