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A COMPLEXA E VULNERÁVEL JORNADA DE PHOEBE PHILO

Atualizado: 3 de nov. de 2023

A história da designer que conquistou mulheres de norte a sul fazendo algo simples: entendendo suas dores, seus desejos e suas rotinas.

Phoebe Philo fotografada por David Sims, Vogue, Março 2013 | Fonte: Vogue

Phoebe Philo é, com certeza, um dos maiores nomes da moda no século XXI. Designada por muitos como a epítome do minimalismo, talvez seria um equívoco simplificar suas passagens pela indústria dentro desta abordagem. A designer, que contou com uma ajudinha de seu networking no início mas que conquistou reconhecimento e sucesso por mérito, deixou um legado, até aqui, mais complexo que isso.


Além de fazer uma leitura profunda sobre sua história pessoal e profissional, também trago mais adiante uma pesquisa inédita sobre a diversidade nos castings de Phoebe, questão que ganhou luz pelo relato da modelo somaliense Iman Mohamed Abdulmajid. Fica a torcida para que seu retorno ao mercado, agendado para hoje, dia 30 de outubro, seja bem-sucedido, de todas as formas.


A INFÂNCIA E JUVENTUDE DE PHILO


Phoebe Philo, 50, nasceu em janeiro de 1973 em Paris, onde viveu até pouco antes de completar dois anos. De pais britânicos, foi em Harrow, em torno de 50 minutos do centro de Londres, onde cresceu e passou a adolescência.


Seu pai é administrador de propriedades e não é muito chegado à moda, sendo adepto ao armário com apenas o necessário. Já sua mãe, Phoebe disse à Alice Rawsthorn do The New York Times Style Magazine que ela era de uma área mais criativa e artística e sempre teve seu próprio senso de estilo. Phoebe se lembra de sua mãe ir às reuniões do colégio com casaco e jeans da Saint Laurent. Essa história me trouxe automaticamente à memória quando Simon Porte Jacquemus fez uma saia para sua mãe usando a cortina de casa, isso aos 7 anos de idade, e um dia ela foi buscá-lo na escola usando justamente a saia que ele havia feito. Ah, as mães...


A primeira memória de Phoebe? "[Eu me lembro de] receber um conjunto de fazenda moldado em plástico no meu aniversário de 3 anos. Havia um lago no meio e o fato de conter água foi incrível para mim. Na verdade, a vida no lago é uma das minhas coisas favoritas; tritões, sapos. Adoro ver um girino se transformar em um sapinho em miniatura, depois ele cresce e segue em frente."

Phoebe Philo em 2003. Fonte: Michel Euler / AP | Los Angeles Times

Aos 10 anos ela personalizou seu collant do colégio para torná-lo parecido com o da Madonna. Por volta dos 14, seus pais lhe deram uma máquina de costura e logo em seguida ela já começou a fazer algumas de suas próprias roupas. Seus pais sempre a permitiram sonhar, a viver e descobrir mais sobre a vida por conta própria. Philo disse que tinha por volta de 8 ou 9 anos quando viu Boy George pela primeira vez, e lembra de ter ficado fascinada por "ela ser ele e por isso ser possível". Ela também costumava descolorir seu cabelo e ela mesma furou seu nariz e as orelhas de uma amiga. Nada disso espantava seus pais.


Em 1996 ela se formou em design de moda na Central Saint Martins, em Londres, um dos centros acadêmicos mais renomados e tradicionais na moda, sendo muito influenciada nos minimalistas da década de 1990, principalmente Jil Sander e Helmut Lang, que surgem como grandes referências em algumas de suas coleções futuras. "Sempre tive a sensação de que, se não posso usá-lo, qual é o sentido?" Esse é o tom que Phoebe levou para o resto de sua carreira. Antes de tudo, suas criações precisam ser funcionais.


PHOEBE ENTRA NA CHLOÉ


Durante seu período de estudos na Central Saint Martins, Phoebe conheceu Stella McCartney, de quem ficou muito amiga. No começo de 1997, Stella, que na época tinha 26 anos, foi convidada para ser a nova diretora artística da Chloé, substituindo ninguém mais, ninguém menos, que Karl Lagerfeld - que por sinal não ficou muito contente com a escolha dos executivos. Durante esse movimento, a Chloé tinha como presidente Ralph Toledano, que hoje é presidente da Fédération de la Haute Couture et de la Mode. E com sua nomeação, McCartney chamou Phoebe, com 24 anos, para ser sua assistente, e ela aceitou. Phoebe relata que havia uma pressão gigante quando McCartney assumiu a casa. Substituir Karl não deve ter sido uma tarefa fácil…


Mas, antes de continuarmos, vamos fazer um breve retrospecto sobre a Chloé. Fundada em 1952 pela egípcia Gaby Aghion, a marca recebeu esse nome em homenagem à uma amiga de Gaby, Chloé Huisman, e sempre apostou em um estilo glamuroso e despreocupado. Gaby se focou no prêt-à-porter, algo que ainda não era comum na época, e era uma defensora ferrenha da qualidade da matéria-prima, com o histórico de privilegiar a seda, os bordados ingleses e as rendas. Quanto às cores, o bege rosado e o rosa pó eram seus favoritos por remeterem à areia egípcia.

Look 14 da coleção primavera/verão 2004. Modelo: Heather Marks; foto: Marcio Madeira. | Fonte: Vogue Runway

Mas bom. Em 2001, poucos anos depois de entrar na Chloé, Phoebe se tornou diretora artística da casa, sucedendo Stella que deixou o cargo para criar sua própria marca. Há rumores de que a amizade de Phoebe e Stella ficou estremecida após sua saída da Chloé. Isso porque Stella teria ficado desapontada que Phoebe não a acompanhou na criação de sua marca. Por outro lado, quando Phoebe entrou em 2014 para a lista da Time das 100 pessoas mais influentes do mundo, Stella foi quem apresentou a homenageada na edição, dizendo: "uma das poucas designers mulher, ela celebra o simples e defende a qualidade e a realidade do guarda-roupa de uma mulher. Quando as pessoas investem em seu trabalho, eles o têm para a vida. Uma das coisas que nós compartilhamos é a realidade de que as roupas que nós desenhamos são realmente vestidas."


A estreia de Philo na Chloé aconteceu na coleção de primavera-verão 2002, dia 9 de outubro de 2001, que recebeu de cara inúmeras críticas positivas e mostrou que ela estava apta a ocupar o cargo ao qual foi indicada. Ela apresentou uma evolução do que Stella já estava trazendo, fortalecendo a visão de uma mulher sexy, inserindo mais transparência em vários momentos, mas mais sofisticada e elegante, e conciliando com looks que também se adequavam ao dia a dia de trabalho e às outras atividades, como encontros com amigos. É interessante que a maioria das suas criações pareciam ser mais diurnas do que noturnas.


Em uma crítica da coleção outono/inverno 2004, que antecedeu seu casamento de julho com o galerista e negociador de arte Max Wigram, Sarah Mower da Vogue descreve muito bem o estilo de Philo: "Estilo urbano e campestre, calças masculinas, casacos camel, tricôs, blusas conservadoras e vestidos femininos dos anos 1950 estavam todos em sua coleção, mas Philo aplicou um toque refrescante de pensamento feminino a questões urgentes como: 'minha bunda vai parecer grande nisso?' e 'isso não vai me fazer parecer com a mamãe?'" É uma mulher jovem, ao menos de espírito. Que se preocupa em ser consistente e em parecer jovem, mas que ao mesmo tempo quer uma imagem de que se leva a sério. Esse equilíbrio vem com vestidos e saias de diferentes comprimentos, tons terrosos e bastante verde e, ao mesmo tempo, muito decote.


Phoebe só se instalou definitivamente em Paris poucos antes de apresentar a coleção de primavera/verão 2004. Sua primeira filha, Maya, nasceu em dezembro de 2004, por volta de dois meses antes do lançamento da coleção de outono/inverno 2005, que contou com a brasileira Isabeli Fontana no casting. A designer chegou a dar início aos trabalhos da coleção, mas por conta da gestação passou o bastão da liderança para a sua equipe, que concluiu os trabalhos com maestria durante os três meses de licença de sua chefe. Philo, que foi a primeira diretora artística de uma grande maison a tirar licença maternidade e assistiu ao desfile da primeira fileira, se mostrou emocionada e grata pelo trabalho feito: "eu estou muito tocada pelo o que eles fizeram." Com isso, essa coleção também deixou claro que ela havia conseguido criar até ali um espaço criativo, equilibrado e até tranquilo para todos. Também foi durante esse período que a it bag Paddington foi criada.


Look 16 da coleção primavera/verão Chloé 2005. Fonte: JEAN-PIERRE MULLER/AFP via Getty Images | Grazia

A coleção primavera/verão 2006 marcou a volta de Phoebe do retorno da licença maternidade, e também foi sua última coleção para a casa. Ela voltou quase que com um novo direcionamento artístico, com uma nova abordagem. Se até aqui nós tínhamos visto looks mais leves, com tecidos fluídos, com peças de fácil interpretação e elaboração descomplicada, Philo voltou nesta coleção trazendo mais volume, mais sofisticação e com uma dosagem menor dessa pegada sexy, que é muito traduzida pela escolha de tecidos e modelagens. Partindo de uma pesquisa sobre "senhoras ricas de 1960", ela se afasta de looks mais despojados, fluidos, despreocupados, e se aproxima de uma imagem mais luxuosa, com roupas que parecem ter levado muito mais tempo de serem feitas, com aspecto de sob medida, muito bem acinturadas e alinhadas, com estruturas mais rígidas.


Phoebe pediu demissão do cargo dia 5 de janeiro de 2006. "Minha decisão de renunciar é por motivos pessoais, incluindo especialmente para passar mais tempo com meu novo bebê nos próximos meses. Quero agradecer à Casa Chloe, ao Grupo Richemont e, claro, a Ralph Toledano pelo apoio e compreensão da minha decisão. Os últimos anos foram emocionantes para todos nós e desejo à empresa todo o melhor sucesso no futuro", disse Philo. Tempos depois, ela chegou a falar sobre o quão difícil se tornou conciliar a vida profissional e materna entre Paris e Londres. De segunda a sexta ela ficava na capital francesa e aos finais de semana ela pegava o Eurostar para ficar em Londres. Uma amiga lembra de encontrar Phoebe em um Starbucks de Londres completamente exausta. E é de encarar como corajoso o fato de que ela abriu mão, naquele momento, da sua carreira no auge para se focar na família e em sua saúde mental.


As duas coleções seguintes à sua saída foram realizadas pela sua equipe de design, que era composta por Sara Jowett, Natasha Lee, Valeska Duetsch, Adrian Appiolaza e Yvan Mispelaere. Mas quem assumiu o comando da marca de forma definitiva foi o sueco Paulo Melim, que na época estava na casa italiana Marni.


A passagem de Phoebe pela Chloé foi um grande sucesso comercial, em que ela imprimiu muito da sua vida pessoal daquele seu momento, que era mais jovem, sexy e contou com o início de seu período de maternidade, trazendo a sandália anabela de madeira, os vestidos baby-doll, cintura alta, peças de veludo, calças com caimentos perfeitos e looks com um equilíbrio de cores muito bem pensado para o guarda-roupa de suas consumidoras. Além disso, desde o início Phoebe também imprimiu sua própria identidade visual: simples e com cores sóbrias, praticamente a Steve Jobs da moda. Phoebe foi bem-sucedida em unir uma mulher muito sofisticada e ao mesmo tempo muito sexy, sem medo de mostrar o corpo, mas ao mesmo tempo cobrindo-o com muita classe e modernidade.

Campanha outono/inverno 2004, Chloé. Fotografada por Inez Van Lamsweerde e Vinoodh Matadin.

Como já dito bem no início, é interessante que Phoebe esteja quase sempre correlacionada pela abordagem minimalista. Ao mesmo tempo, a sua passagem pela Chloé é, em geral, o contrário: Phoebe quase sempre abusou das cores, das estampas e dos acessórios. Parece-me que há uma interpretação generalizada sobre a sua carreira quanto a este ponto.


O PERÍODO IMPERIAL DE PHOEBE NA CÉLINE


Dia 11 de setembro de 2008 Phoebe foi anunciada como a nova diretora artística da Céline, pouco mais de 2 anos e meio após sua saída da Chloé. Durante esse período em que ficou fora, Phoebe conta que realmente saiu da moda, sem acompanhar as temporadas, sem ler revistas, passando muito tempo em seu pijama, aproveitando a família e os amigos. Inclusive foi durante seu segundo ano "sabático" em que ela teve seu segundo filho, Marlowe.


Mas, antes de prosseguir, vamos contextualizar: a maison foi criada em 1945 em Paris por Céline Vipiana e seu marido Roberto Vipiana como uma grife de calçados infantis sob medida. Em 1959, eles começaram a comercializar calçados e acessórios esportivos femininos, e em 1964 a marca potencializou seu sucesso com o lançamento de seu primeiro perfume: Vent Fou. E é em 1967 que eles lançam sua primeira coleção de prêt-à-porter intitulada de "Couture Sportswear". A maison teve desde o início o objetivo de vender moda à mulher comum, a favor de roupas práticas e funcionais, o que fez com Vipiana lançasse essa abordagem mais esportiva com ternos com saia de lã, camisas justas, coletes de couro e jeans em tons pastéis. Isso tudo é a cara da Phoebe, não é? E a marca teve sua compra pelo grupo LVMH finalizada em 1996 pelo valor de 412 milhões de euros. Após a morte de Vipiana em 1997, foi Michael Kors quem assumiu a direção artística da casa e impulsionou sua relevância.


Voltando à era Phoebe, ela sucedeu a croata Ivana Omazic, que chegou após a saída de Michael Kors em 2004, e foi chamada para dar início ao rebranding que a maison estava ambicionando. Philo só aceitou a proposta com uma carta branca vindo em conjunto, demandando liberdade para montar sua equipe e para repaginar a casa, desde as coleções até os pontos de venda. Ela começou abrindo um estúdio na Cavendish Square, em Londres, a 10 minutos do Buckingham Palace. E era ali onde tudo acontecia, mesmo a Céline tendo headquarter em Paris. Na verdade ela continuou indo à cidade, mas apenas alguns dias por mês, onde ficava hospedada no Ritz.

Look 9 da coleção primavera/verão 2010, Céline. Fonte: Monica Feudi / GoRunway.com | Vogue Runway

A primeira coleção de Phoebe para a maison foi a resort 2010, apresentada apenas em junho de 2009, fazendo com que a marca ficasse de fora do calendário oficial durante esse período de transição. Na ocasião, Phoebe disse: “depois da minha pausa, e com a Céline em várias mãos diferentes nos últimos anos, foi melhor para mim trabalhar numa ideia de guarda-roupa do que muito em tendências." Phoebe se focou em estabelecer as fundações da marca. Como ela mesma disse, com as diferentes direções que a antecederam, a Céline estava um pouco perdida, sem um posicionamento sólido. E essa preocupação em construir um guarda-roupa e fugir do conceitual ou de ser guiada apenas pelas tendências percorreu o trabalho de Philo na casa até seus últimos anos.


A estreia oficial de Phoebe nas passarelas da Céline aconteceu na coleção de primavera/verão 2010. E que coleção, meus caros. Impecável. Que prazer admirar todos os looks. Aqui, Phoebe reafirma uma certa paixão por peças mais fluídas (mais uma vez), que se movimentam e trazem movimento ao corpo feminino. Ela dá uma aula em modelagem e, principalmente, sobre o estudo e a escolha de tecidos, algo que conhecidamente ela valoriza enormemente.


Depois de apresentar uma mulher mais jovem na Chloé, Phoebe apresentou uma mulher mais madura na Céline, aqui sim fazendo mais jus aos que a enxergam como o símbolo do minimalismo, principalmente nessas primeiras coleções. Em toda a sua trajetória na Céline, Phoebe priorizou combinações funcionais e o conforto, que por vezes unia o esporte com a alfaiataria, por exemplo. Ela imprimiu esse minimalismo tanto nos looks diurnos quanto noturnos, mantendo o espírito de uma mulher moderna e sexy e se atentando às raízes esportivas da casa. Isso tudo tinha uma pegada mais comercial e respondia diretamente ao que sua consumidora buscava. Mas não entendam que isso era "fazer o básico bem feito". As construções de Phoebe eram complexas. Exigiam um alto grau de conhecimento técnico. Por trás de imagens simples, sempre havia um construção complexa.


A coleção de primavera/verão 2011 foi uma das mais interessantes. Phoebe disse que tinha em mente uma mulher que não precisava mostrar muito para conseguir o que queria, e ressaltou mais uma vez um certo senso de despreocupação dessa consumidora: "é a ideia do tipo de mulher que meio que não se importa como ela se parece quando ela está dançando". É uma coleção que fortes, com uma diversidade de cores e muitas estampas gráficas, em que ela destaca tecidos mais artesanais e o jeans japonês. Mas que, como ela mesma disse, quis fugir do óbvio.


Inclusive essa coleção também ganhou manchetes após o artista Ye, também conhecido como Kanye West, ter usado uma das blusas de seda em sua apresentação do Coachella em 2011. Ye, que já chegou a mencionar Philo na faixa "Dark Fantasy", chegou a entregar à Phoebe em junho do mesmo ano o prêmio do CFDA Fashion Awards na categoria de Designer Internacional. Em 2013, Ye usou Phoebe como inspiração para a faixa "New Slaves", justificando que “você pode usar uma calça Zara, certo? E uma garota entra com uma versão da Céline, e você se sente uma merda. Esse é o problema. Eu estou falando de nós, os novos escravos, as pessoas que amam moda. Eu estou falando de nós, sabe? Porque eu sou um escravo disso. Eu amo isso. Eu amo isso!" Um ponto chama a atenção aqui: apenas o sucessor de Phoebe, Hedi Slimane, inseriu a linha masculina na casa. Uma pena. E poucos meses depois de ganhar este prêmio, Phoebe ganhou no final de 2010 o prêmio de Designer do Ano do British Fashion Council.

Phoebe Philo e Ye nos bastidores do desfile da Céline, primavera/verão 2012. Fonte: Vogue Britânica.

Em 2012, Phoebe ficou grávida de seu terceiro filho, Arthur, o que levou a maison a ficar fora do calendário oficial na temporada de outono/inverno 2012. Também foi neste ano que Daniel Lee, um dos pupilos de Phoebe e atual diretor artístico da Burberry, entrou na Céline e posteriormente foi promovido a diretor de prêt-à-porter ainda durante a liderança da designer.


Em 2013, com o seu sucesso já consolidado em alto patamar, Philo decidiu não mostrar mais as suas pré-coleções antes de chegarem às lojas, para evitar que outras marcas, principalmente as de fast fashions, copiassem o que ainda nem havia chegado às lojas. Outras marcas seguiram seu movimento e interromperam um ciclo que havia começado anos antes. E foi neste mesmo período que ela foi acusada de plágio por uma peça apresentada na coleção de outono/inverno 2013. A peça é um casaco com as mangas amarradas na frente, e a referência apontada é do estilista estadunidense Geoffrey Beene, que desenhou a peça em 2004, que de fato apresenta uma semelhante gigante. Na época, a assessoria da Céline se negou a comentar sobre o caso. Inclusive, apenas por motivo de curiosidade, foi Ralph Toledano, Presidente e CEO da Chloé enquanto Phoebe era diretora da maison, que deu luz ao então desconhecido Alber Elbaz, descoberto justamente no estúdio de Geoffrey Beene.


É engraçado como Phoebe conseguiu continuar trazendo novidades coleção após coleção. Quando o mercado já tinha se acostumado com o seu jeito e seus traços, na busca por fugir do óbvio, ela trouxe na coleção de primavera/verão 2014 uma visão muito mais enérgica para a mulher Céline: uma inundação de cores (principalmente primárias), motifs inspirados nas fotografias "Graffiti", de Brassaï’s, recortes mais abstratos e peças oversized seguidas de peças mais justas ao corpo, além de acessórios que brincavam muito com formas geométricas, até lembrando um pouco os primeiros anos da carreira de Simon Porte Jacquemus. O próprio andar das modelos foi mais acelerado do que o comum, embalado por "Freedom", de George Michael.


Em 2014, Whitney Vargas escreveu para a The New York Times Style Magazine uma análise que me senti na obrigação de compartilhar com vocês, falando sobre um dos pontos centrais do que a Phoebe representa: um olhar feminino sobre a realidade de uma mulher. Ela disse: "invisível. É isso que as roupas de Phoebe Philo para Céline fazem você sentir. Não é romântico, como Valentino. Ou escuro e nervoso, como Saint Laurent. Simplesmente invisível. [...] E, ah, que alívio! Porque estamos ocupadas. Nós trabalhamos. Limpamos a boca dos nossos filhos com as costas das mãos enquanto saímos correndo porta afora. Não temos tempo para considerar se nossas estampas combinam ou se nossos botões estão alinhados. [...] As roupas são silenciosas e não pretendem fazer uma declaração.”


A coleção primavera/verão 2017 é quase que o ponto de chegada entre o minimalismo, que tantos carimbam Phoebe, e o prêt-à-porter mais tradicional, se assim podemos dizer. Nas cores, ela trouxe verde menta, magenta, laranja fluorescente e um vermelho muito vivo. Nas modelagens, pudemos ver uma alfaiataria mais moderna, com calças mais volumosas, um vestido com um top sobreposto com franjas, vestidos drapeados e saia esvoaçante. E os acessórios nunca passam despercebidos. Era clara a dedicação de Phoebe em criar bolsas, óculos e sapatos que iriam direto ao coração de suas consumidoras.


Esse desfile também marcou uma certa fadiga de Phoebe com a mídia: ela não deu entrevistas nem antes e nem depois da apresentação. O seu sucesso provocou quase que uma invasão dos jornalistas, sendo habitual cenas com inúmeros celulares sendo apontados ao seu rosto para que fossem colhidas suas ideias sobre o que acabava de apresentar. O que retoma um traço de sua característica: desde estudante da Central Saint Martins, Philo sempre se destacou entre os mais conceituais da turma, e relutava em justificar suas ideias por trás de seu trabalho. Ela preferia que as peças interpretassem por conta própria.

Look 21 da coleção primavera/verão 2014, Céline. Fonte: Monica Feudi / Feudiguaineri.com / Vogue Runway

Uma vez, quando perguntada sobre suas consumidoras, Philo disse: “são todas diferentes, mas com o traço comum de uma apreciação por roupas que sugerem algo novo, mas feitas para durar muito além da moda das tendências rápidas.” Imagina o desafio de você fazer com que uma marca permaneça relevante durante anos sem tomar as tendências correntes como o principal guia de suas criações.


A última coleção de Phoebe para a maison foi a resort 2018. Dia 22 de dezembro de 2017 foi anunciada a saída da diretora da Céline, que posteriormente foi substituída por Hedi Slimane, que segue até hoje no cargo.


Com relação ao aspecto financeiro da casa, a Céline tinha um faturamento estimado em torno de 150 milhões de euros na chegada de Phoebe. Em 2018, após a sua saída mas com muitas de suas peças ainda dominando as lojas, esse número chegou em torno de 494 milhões de euros - um crescimento de quase 330%. Em 2021, com o Hedi Slimane, o faturamento foi para em torno de 728 milhões de euros - um crescimento de mais de 60%. A previsão para 2023, de acordo com o The Business of Fashion, é de um faturamento na casa dos 2.2 bilhões de euros. Isso mostra que Slimane, apesar de controverso, também é um sucesso comercial.


A saída de Phoebe causou um desespero tão grande que no final de semana seguinte à apresentação da primeira coleção de Hedi Slimane para a casa, o site de revenda de produtos de luxo The RealReal apresentou um aumento de 52% nas buscas por peças criadas por Philo, de acordo com uma matéria de Steph Eckardt para a W Magazine. O site Vestiaire Collective também apresentou um aumento na busca, além de que no próprio site da Céline o acesso aos produtos aumentou 43%, e no eBay a pesquisa por "Phoebe Philo" aumentou 225% no dia seguinte do primeiro desfile de Slimane.


Sua passagem pela casa foi emocionante. Tudo tinha vida própria. Definitivamente era um prêt-à-porter que nos lembrava a haute couture. A aposta de Phoebe em construções simples e descomplicadas, mais uma vez, foi o que conquistou seu público. Ela soube navegar, e talvez até desbravar, o minimalismo com muita maestria. O minimalismo tem como premissa a troca da quantidade pela qualidade. Para você ter menos peças de roupa, você precisa ter peças que dialoguem com várias outras e assim, na teoria, você consegue manter um guarda-roupa mais enxuto, com modelagens, cortes e caimentos mais simples e fluídos, mas que dão muita luz à sofisticação, à elegância e atemporalidade. Na prática, as consumidoras da Céline de Phoebe se sentiram tão atraídas por suas criações que resolveram comprar, comprar e comprar. Logo no desfile seguinte à sua estreia, grande parte da plateia chegou vestida completamente de Céline, dando o gosto da sua aprovação ao que estava sendo feito.

Look 6 da coleção Resort 2018, Céline. Fonte: Vogue Runway

A DIVERSIDADE DOS CASTINGS DE PHOEBE

Em setembro do ano passado a modelo somaliense Iman Mohamed Abdulmajid deu uma entrevista para o canal Sways Universe que veio a viralizar apenas neste ano, e por um motivo não tão legal.


Em meio à uma abordagem sobre o assunto de racismo na moda, Iman citou nominalmente Phoebe Philo como uma personagem desse ecossistema: “uma das designers era uma mulher chamada Philo, que trabalhava na Céline. Todas as mulheres pretas, brancas, de todas as idades que conheço, cobiçavam Céline. E então Philo disse: ‘eu serei forçada a usar modelos pretas?' - ela nunca usou modelos pretas... Eu disse 'não, tem que haver uma modelo preta certa para você, não pode haver nenhuma modela preta que seja certa para você”… só por [ela] dizer isso, eu disse - e eu fiz isso e eu tenho feito isso, mas nunca disse isso publicamente… pela ação de [ela] dizer que ela tem que ter a escolha de não usar modelos pretas, é por isso que eu nunca comprei uma bolsa Céline. Ela tem direito à sua passarela e eu tenho direito à minha carteira.”


Esse acontecimento foi um dos motivos que me motivou a escrever sobre Phoebe. E levando em conta meu comprometimento com a apuração de informações, busquei fazer uma pesquisa inédita: um levantamento de todas as modelos brancas, pretas e de origem asiática que desfilaram ou fotografaram as coleções que Philo desenvolveu em toda a sua carreira, considerando sua passagem na Chloé e na Céline. Esse levantamento tem como autor esse que vos escreve, usando como base de dados o portal Vogue Runway. Não foram incluídas nesta análise as campanhas. Apenas coleções de primavera/verão, outono/inverno, resort e prefall. Também é importante ressaltar que será apresentado aqui o número de looks vestidos por modelos pretas, por exemplo, e não o número de modelos, já que uma modelo pode ter desfilado mais de um look em uma mesma coleção.

Look 11 da coleção outono/inverno 2017, Céline. Fonte: Monica Feudi / Indigital.tv / Vogue Runway

Vamos aos resultados.


Em sua passagem na Chloé, Phoebe apresentou um total de 9 coleções. Ao todo foram 372 looks, 16 (4,3%) deles usados por modelos pretas e 0 por modelos de origem asiática. Já na Céline, a designer apresentou 33 coleções: 1053 looks, sendo 89 (8,4%) usados por modelos pretas e 35 (3,3%) por modelos de origem asiática. Isso quer dizer que de 1.425 looks apresentados em toda a sua carreira na Chloé e na Céline, Philo designou 140 looks para modelos pretas e de origem asiática, um total de 9,8% de tudo o que apresentou nas casas. E de um total de 42 coleções, 13 coleções não tiveram nenhuma modelo preta ou de origem asiática, sendo que as coleções de prefall 2016 e resort 2018 foram as que mais tiveram esse recorte de modelos, com mais 70%. E também é verdade que seu desfile de primavera/verão 2018 também uma diversidade bem maior em comparação com suas apresentação do começo deste século.


Phoebe parecia apreciar muito o trabalho da modelo etíope Liya Kebede, que apareceu na passarela da Chloé diversas vezes, e da estadunidense Binx Walton, que se fez presente em vários momentos da Céline. Mas, o que enxergamos dessa fotografia é que de fato o casting das coleções de Phoebe foi um problema. E não sejamos hipócritas. Foi um problema assim como o de outras muitas marcas. Claramente meu objetivo não é fechar o olho para o resto do mercado. Para este artigo fez sentido me debruçar sobre as coleções e trazer esses dados inéditos dessa maison específica. Mas sabemos que a grande maioria das outras marcas teriam resultados parecidos. O objetivo deste levantamento é trazer luz a um problema real do mercado e provocar a reflexão para possíveis mudanças.


Phoebe é conhecida por criar para mulheres reais. Tim Blanks já escreveu sobre o assunto: "Phoebe Philo tem uma forte ética de trabalho e uma atitude intransigente que vem dos anos 90, quando ganhou rigor e uma obsessão pelo que chama de “mulheres de verdade”. Uma pena que essa mulher real tenha sido, de forma generalizada, homogênea. Mas, após estudar a designer, também deixo aqui meu sentimento de que é difícil compreender esse comportamento repetitivo de Phoebe, que apresenta lucidez intelectual e cresceu próxima a uma cidade como Londres. Só por curiosidade, Londres é a cidade mais diversa da Inglaterra: de acordo com dados de 2021 fornecidos pelo governo, 20,2% da população é asiática e 13,5% é preta.


Um fator complicador é que Philo não se pronunciou sobre as falas de Iman, o que não é positivo. Mas espero verdadeiramente que seu retorno ao mercado seja mais diverso que em suas passagens anteriores.

Look 25 da coleção primavera/verão 2018, Céline. Fonte: Monica Feudi / Indigital.tv / Vogue Runway

O RETORNO DE PHOEBE PHILO

Desde a saída de Phoebe Philo da Céline, suas fãs mais leais, conhecidas como Philophiles, ficaram órfãs. O perfil do Instagram @oldceline, criado para reviver o período e nos fornecer uma nostalgia da designer, já tem mais de 360 mil seguidores.


Mas em julho de 2021, três anos e meio após sua saída da Céline e depois de muitas especulações sobre para onde a mente brilhante iria, foi anunciado que Phoebe iria lançar sua marca homônima, que apresentou hoje, dia 30 de outubro de 2023, há poucas horas, sua primeira coleção. A marca também tem a participação minoritária do grupo LVMH, garantindo à Phoebe a total autonomia no gerenciamento de sua nova empresa e de suas criações.


Esse parece ser, na verdade, um desejo antigo de Philo. Desde antes de entrar na Céline essa possibilidade foi aventada pela designer. No anúncio de sua volta, Phoebe disse que “estar no meu estúdio e produzir mais uma vez foi emocionante e incrivelmente gratificante. (...) Estou muito ansiosa para voltar a ter contato com meu público e com pessoas de todos os lugares.”


Aparentemente o planejamento foi intenso, visto que essa primeira coleção já foi adiada algumas vezes e foi lançada após mais de dois anos do primeiro anúncio. O lançamento contou com mais de 100 itens que vão desde acessórios em couro, óculos, jóias, sapatos até roupas prêt-à-porter.


POR FIM

Phoebe Philo deixou a indústria há quase 6 anos. E quando olhamos para trás, é incontestável que ela foi uma grande mestra de direção artística. Seu olhar captou durante os anos em que esteve ativa movimentos de mercado e do consumidor que deixou qualquer revoada de águias com inveja. Ela teve capacidade de compreender os ciclos que estávamos vivendo e a habilidade de entregar coleções sensíveis que respondiam totalmente aos desejos de suas consumidoras, que iam além de querer gastar seu dinheiro e eram mais pessoais. Ela soube trazer toda sua sensibilidade sobre a mulher, seja pela perspectiva materna, seja pela profissional ou pela casual, e soube unir todos esses espectros em coleções funcionais antes de tudo, para depois se apegar ao design. Ela desafiou a gravidade com suas roupas fluídas. Uma sensibilidade mais difícil de ser enxergada no seu sucessor, por exemplo.


Ao mesmo tempo, Philo teve na mesma proporção a insensibilidade em deixar de fora da grande maioria de suas apresentações modelos pretas e de origem asiática. Aparentemente isso também não era algo que causava incômodo na maioria dos críticos. O que mais chama a atenção é que não estamos falando do século passado. Nós estamos falando de eventos que possuem menos de uma década de distância do hoje.


Vai ser muito interessante observar a sua volta porque as regras do jogo mudaram: de 2017 para hoje, a tarefa de colocar uma marca na rota de influência dos consumidores e formadores de opinião é diferente, mas parecia ser ainda mais difícil antigamente do que nos tempos atuais. Um dos grandes méritos de Phoebe foi ter modernizado a Céline e ter sido capaz de potencializar sua relevância, e, olhando para a história recente, nós temos alguns outros nomes que foram capazes de fazer o mesmo em suas respectivas casas, como Demna na Balenciaga e o próprio Daniel Lee na Bottega Veneta. Mas com certeza Phoebe tem potência cognitiva e intelectual para ser bem sucedida em sua nova empreitada. Como Vanessa Friedman do The New York Time disse: "se a Sra. Philo está de volta, provavelmente é porque ela tem algo totalmente novo a dizer, para um novo mundo." Talvez Miuccia Prada vai (re)encontrar uma ótima companheira (e não rival) no mercado.


Phoebe com certeza foi alguém que conseguiu navegar pelos mares do minimalismo como poucos e abriu caminhos para muitos outros seguirem, mas é muito difícil resumir sua carreira em cima desse conceito. Sua passagem pela Chloé e até mesmo pela Céline, principalmente nas coleções de Resort, foi marcada por uma abordagem que ampliou a visão tradicional do minimalismo. Mas, se olharmos pela perspectiva do atributo 'atemporal', ela conseguiu de fato cravar o seu nome no conceito, já que até hoje suas criações são tratadas como arquivos preciosos.


Muito bem. Seja muito bem-vinda de volta, Phoebe!

Phoebe Philo. Fonte: Alamy/AP / Luxury London

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